sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Cidadania, a gente vê por aqui?


Antes de mais nada:

Para começar este texto, gostaria de citar um pequeno parágrafo do livro “Como funciona a cidadania”, do jurista João Batista Herkenhoff. Apesar das críticas que farei à significação dos termos cidadão e cidadania, utilizarei o conceito chave apresentado no parágrafo abaixo para nortear o texto:

“O povo tem o direito de acompanhar, fiscalizar e cobrar a ação das autoridades que integram os poderes e a administração do Estado. Nessa cobrança e nessa participação, o povo cumpre seus deveres e exerce seus direitos de cidadania”

Agora sim, vamos ao texto:

Nem todos os cientificismos utilizados pelas sociedades modernas, na busca por justificativas para as suas  intencionalidades, institucionalidades e racionalidades, são capazes de conceber significados concretos e imutáveis para determinadas concepções sociais históricas. Alguns conceitos, principalmente aqueles apreendidos pelo acumulo de experiências humanas (como hábitos) se modificam frequentemente, adaptando-se aos novos espaços de interação humana (meios), reformados de acordo com o exigido pela evolução da humanidade. 

A cidadania é uma qualidade social condicionada à existência da civilização e delineada de acordo com o contexto social ao qual pertence. Apesar de não ser exatamente um hábito, a cidadania também é transformada de acordo com o requerido pelo meio e pelas características dialógicas estabelecidas entre sociedade e Estado. Por se tratar de um termo trabalhado de forma subjetiva, a cidadania não pode ser transmitida somente a partir de códigos linguísticos. Sua acepção social só é totalmente assimilada, quando o indivíduo a vivencia. Ou seja, aprender cidadania está ligado não só à compreensão intelectual, como também à espontaneidade cognitiva por meio dos sentidos.

Por envolver uma relação íntima e experimental, é possível que cada ser humano a interprete a cidadania diferenciadamente. O que não quer dizer, todavia, que estas definições particulares sejam, sempre, antitéticas. Pelo contrário, elas tendem a se complementar na medida em que a sociedade exige uma conceituação mais amplificada. A cidadania, com o passar dos tempos, deve abranger tudo aquilo o que diz respeito ao relacionamento entre cidadão, sociedade e Estado, de acordo com cada civilização. 

Suscetível a metamorfoses constantes e às vezes imperceptíveis, a cidadania deveria fazer parte da agenda cotidiana de debates dos indivíduos do Estado. Pensar e repensar este termo possibilita aos indivíduos participarem de sua evolução e descobrirem novas formas de aplicação. A cidadania precisa sempre ser reformada também pela ação humana, para sempre estar a serviço do que realmente interessa aos grupos de convivência e para transformar mais pessoas em cidadãos.  

Recentemente, boa parte da sociedade vem se afastando da discussão acerca do seu próprio progresso. Isto, também, devido ao aumento dos sentimentos utilitaristas e egoístas, que “unem” a todos nós em prol de outras satisfatoriedades com menos potencial de compartilhamento social. Neste contexto, é extremamente laborioso ser de fato um cidadão, ou melhor, manter uma relação de trocas de direitos e afazeres com o Estado, visando a reciclagem do país e o melhor desempenho do governo.

Lá atrás:

A história da cidadania tem início com o surgimento da ideia de civilização, quando as discussões acerca da moral, do progresso e da cultura começaram a fazer parte da rotina dos primeiros conglomerados sociais. Entretanto, neste período, apenas certos valores foram agregados ao conceito de cidadania. Aliás, este termo sempre passou por reformulações e incorporações, ao longo da história. Por isso a cidadania está sempre em construção.

Entretanto, foi no período de invenção da escrita, entre 4000 a.c e 3500 a.c., na chamada Idade Antiga, ou Antiguidade, que o conceito de cidadania ganhou uma interpretação mais próxima da que temos, hoje. Grécia e Roma, duas das civilizações responsáveis por influenciar política e filosoficamente a humanidade, utilizavam seus cidadãos para traçar os roteiros a serem seguidos por suas sociedades. Não muito diferente do que temos hoje, nem todos estavam habilitados a participar destes debates e opinar sobre os rumos das nações.

Na Grécia antiga, a cidadania era um direito político que credenciava pessoas a fazer parte de um seleto grupo com “poderes” para discutir os rumos da nação. Estes segmentos da sociedade participavam opinativamente das decisões que coordenavam a trajetória dos gregos. Quase nada era feito sem a opinião ou o conselho dos cidadãos. Todavia, apenas “homens livres” eram aptos para esta participação. Estes homens, usualmente proprietários de grandes terras, eram distinguidos como cidadãos porque não precisavam trabalhar. Ou seja, comerciantes e trabalhadores eram excluídos. Sua vontade não era ouvida ou discutida.

No Império Romano, o afunilamento era ainda maior. Por lá, eram identificados como tais (cidadãos), aqueles com “capacidade” para cumprir com seus direitos civis e políticos. Os considerados em condições para o exercício destas funções eram, novamente, os homens livres. Mas, em Roma, os homens livres idôneos para a função de cidadãos eram apenas os Patrícios, aristocratas descendentes dos fundadores de Roma. Aliás, o fato de serem parentes de antigas famílias romanas, era um dos motivos principais para justificar o abismo social entre os Patrícios e os Plebeus, grupo que, mais tarde, rebelou-se contra a condição marginal que lhes fora imposta.

Mais tarde, na Idade Média, a cidadania sofre perda de sentido e é quase que eliminada das civilizações com o surgimento das Fortalezas Particulares (Feudos). Os Senhores Feudais, com poderes praticamente absolutos, não abriam espaços para discussões sobre as estratégias do governo para os Feudos. Os habitantes (dos Feudos) eram proibidos de participar, mesmo que opinativamente, das decisões tomadas pelos senhores. Mas esta realidade não durou por muito tempo. Com as famosas invasões bárbaras, os Feudos não conseguiram resistir e foram dissecados em cidades e mais tarde em países (Estados Nacionais).

Já na Idade Moderna, durante o período absolutista, a formação política dos países deu espaço a um vínculo importante para o que viria a acontecer mais tarde, principalmente para o conceito de cidadania, a união da burguesia com os Reis. Os Reis mandavam, mas quem os sustentava, com impostos e taxas eram os burgueses, que em contrapartida recebiam apoio político. Apesar da relação amistosa, o acumulo de poder de um e de outro grupo passou a ser um problema. As interferências e as disputas por poder geraram crises e a burguesia, altamente poderosa, passou a enxergar os Reis como um empecilho em seus negócios. “Cortadas as cabeças” e “queimadas as coroas”, o absolutismo conheceu o seu fim. As revoluções Industrial, Filosófica (iluminismo), Francesa e de Independência, impulsionadas pelos interesses mercantilistas da burguesia, destituíram reis e marcaram o início de uma nova era e o surgimento de novas “interpretações” sobre o papel da sociedade. 

A nova era a qual deram espaços estas (re)(e)voluções é conhecida como a  Idade Contemporânea, que está em vigor até os dias de hoje. O surgimento do Estado de Direito, neste período, é um dos grandes acontecimentos da história da humanidade e uma das principais características do nosso modelo atual. É neste momento que a cidadania volta a ser refletida por teóricos e pensadores e a fazer parte do cotidiano da sociedade. No Estado de Direito nasce a ideia de que “Todos têm direitos iguais perante a constituição”, pensamento importante, que vestiu (e veste) a cidadania até o ano 10 do século 21. 

O problema (e sempre tem um problema) é que o “retorno” da cidadania como quase que um direito do indivíduo entra em confronto com o fortalecimento do capitalismo. Ou seja, de um lado temos o ideal de progresso e desenvolvimento social igualitário e de outro um processo econômico e político que, entre outros, gera exploração, desigualdade e exclusão. Uma nova segmentação da sociedade surge: de um lado os proprietários do capital e do outro os dominados pelo capital, gerando novos conflitos e o surgimento de novas complexidades e classes sociais mais e menos atendidas pelo capital e pela cidadania.

Há, portanto, uma espécie de looping. Porque se antes os cidadãos, dotados de cidadania, eram aqueles com determinado acesso ao poder, hoje, esta situação não é diferente, mesmo com esta longa jornada do conceito de cidadania, ainda existem pessoas privadas da condição de cidadãos, por não fazerem parte dos grupos com capital e influência o suficiente para opinar e participar dos planejamentos organizacionais dos países. 

Hoje, ao invés de receberem o título de cidadãos, muitos recebem a alcunha de consumidores. Estes consumidores (amplo sentido) compram para os “cidadãos de fato” todas as ferramentas necessárias para a sua manutenção no poder. Enriquecem seus cofres, os eternizam em cargos políticos e lhes dão toda a influência para governarem as nações a seu bel-prazer. Os consumidores cidadãos, se é que podemos colocar nestes termos, são impulsionados pela mídia e obrigados pelos governos a cumprirem seus deveres, mas não recebem nada quase nada em troca. Eles não têm a força da burguesia, nem as influências mercantilistas, aqui, a luta por direitos civis passa a ser pura e classicamente uma peleja idealista. O que justifica a importância da educação como um instrumento de transformação social. 

Aqui:

Entre Brasil e Estados Unidos da América a cidadania ganhou formas bem distintas, isso porque, como discutimos, a cidadania tem a ver com o desenvolvimento e a formação do país. Portanto, os conflitos internos e os processos de independência também fazem parte da formulação dos conceitos de cidadania. A cidadania é, também, uma representação da história e da cultura local. 

O desligamento colonial das duas regiões, o espirito americano empurrado pelo capitalismo protestante, o catolicismo ibérico imposto aos “brasileiros”, as práticas de exploração e povoamento, antagônicas historicamente, os períodos escravagistas e suas histórias anteriores e posteriores, as guerras e lutas por direitos civis (quando e se existiram) e as relações de ambos os países com outros governos, a exemplo da relação entre Brasil, Inglaterra e Portugal, entre outros acontecimentos, afastaram culturalmente Tio Sam e Pau Brasil. A edificação das repúblicas nestes ambientes contribuíram para as distinções de tradução que a cidadania ganhou nos dois os territórios. 

Não quero fazer uma ode à história americana ou desfavorecer a brasileira. As duas foram escravas dos malefícios da ganância financeira, produtivista e de interesses pouco eficientes para os desenvolvimentos sociais. Entretanto, preciso destacar que diferenças históricas determinaram quem e como seriam os “cidadãos” e o que e como seria a cidadania, nas duas regiões. Isto devido ao fato de estas diferenças delinearem, ao longo da história, relações trabalhistas, civis, de gênero, de etnia, de religião, financeiras e outras, que contribuíram, mais tarde, para compor a compreensão (pouca compreensão) das pessoas sobre os direitos e deveres de cada indivíduo do Estado. 

Agora:

O pior cego é aquele que pode, mas não quer ver, diz um antigo ditado. E é verdade, infelizmente. Diariamente, podemos perceber como a cidadania está estruturada em nossa sociedade e claro, distinguir quem são e quem não são os cidadãos. Alguns indivíduos ainda guardam uma visão micro e antiquada deste conceito. Acreditam que são cidadãos pagando suas contas, separando o lixo e votando. Hoje, o entendimento do que é cidadania e o que faz um cidadão vai muito além destas poucas funções. Cada um faz o que pode, mas algumas pessoas não querem fazer o mínimo necessário para que tanto as sociedades como o Estado passem pelas reformulações que precisam. O país está carente de uma nova era.  

O Houaiss ensina que a cidadania é a condição da pessoa que, como membro de um Estado, se acha no gozo de direitos que lhe permite participar da vida política, ou melhor, a condição ou qualidade de quem recebe o título honorífico de cidadão. O cidadão, por sua vez, segundo este mesmo dicionário, é aquele indivíduo que, como membro de um Estado, usufrui de direitos civis e políticos garantidos pelo mesmo e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos. Ou seja, é cidadão quem tem cidadania e tem cidadania quem é cidadão.

Esta e outras explanações comuns de serem encontradas, todavia, não podem e não devem servir como o principal mapa, roteiro ou manual de atuação. Elas generalizam o tema, para facilitar sua compreensão, e o encerram sem levar em conta elementos do contexto em que está inserido. O que eu quero dizer é que não há como ser cidadão ou promover e praticar a cidadania sem conhecer realmente o lugar, o país e o mundo no qual moramos. A informação aqui, se faz eficiente, porque nos apresenta à nossa própria realidade e nos dá a opção de participar dela. Quando escolhemos negligenciar a condição real da nossa sociedade é como se nos deslocássemos para mais longe da ideia de ser um cidadão.

E fica ainda mais necessária a discussão, o debate e a renovação do cidadão, porque este conceito está extremamente conectado a outras conjecturas subjetivas, incertas e confusas e vinculado a procedimentos que vêm se tornando falhos, nos últimos anos, como a atuação do estado e o deveres cumpridos por cada “cidadão”. Aliás, mesmo com tudo isso escrito e legitimado em uma folha de papel, não conseguimos discernir o que exatamente é um dever do cidadão, o que é um dever do estado e o que é direito dos dois. Estas funções e obrigações podem ser entendidas e explicadas de várias e diferentes formas, como discutimos no começo do texto, e nem sempre fazem parte de um consenso. Os próprios cidadãos não sabem o que são perante o Estado e o Estado não sabe o que é para os seus cidadãos. Este, na verdade, é um dos grandes problemas que trava o progresso.  O déficit informativo e comunicativo nos torna menos atuantes e torna o Estado menos eficiente.

Tudo bem. Pode ser que estejamos vivendo uma espécie de cinismo coletivo e que o Estado seja totalmente descarado. Mas isso não altera esta condição confusa, que nada soma aos avanços que ora são pretendidos pela sociedade. Arrisco acusar até mesmo os métodos de educação básica como culpados por este grotesco quadro ignorante. Quantas vezes os alunos debatem e aprendem sobre o que é ser um cidadão? Poucas. Na maioria dos casos, aprendem a reproduzir modelos considerados de “sucesso”, para o extrato social mais “bem posicionado” financeiramente. Sentam-se em bancos, estes alunos, muitas vezes, somente para aprender muitas somente o que os levam a reproduzir todo tipo de arcaísmo propagado pelo sistema capitalista, mas não a reproduzir e reformar a cidadania. 

E não é só uma dificuldade da educação formal. Em casa, com a família, exemplos de cidadania também são ignorados. Muitos pais ainda fomentam práticas que vão de encontro aos preceitos básicos de cidadania. Não conseguem educar novos cidadãos, porque estão mais preocupados em formar novos “aparelhos produtivos”, que busquem obter sucesso sendo alimentos da máquina política e financeira que governa o país há mais de 511 anos e não vem obtendo sucesso. 

Reflita: quem são os cidadãos? Quem é que pode decidir sobre os rumos do Estado e participar ativamente do “progresso da sociedade”? Somos muito diferentes dos romanos ou dos gregos, que, mesmo influentes na nossa civilização moderna, são passado? Acredito que não. Ainda temos muitos plebeus marginalizados, sem acesso, presos a “castas” sociais impostas para a manutenção das camadas dominantes, dos patrícios. Patrícios que se eternizam no poder, criam grandes monopólios e utilizam o sistema econômico para benefício próprio, difundindo uma falsa liberdade, que mais gera desigualdade do que bem comum e cidadania.  

O problema fica mais grave, porque não é só culpa dos Patrícios. É também culpa dos Plebeus, que se esquecem da sua condição marginal, e deixam de se organizar para propor as mudanças necessárias, as reformas pelas quais grita o país. Este silêncio dos muitos se torna a força dos poucos e induz o país ao fracasso. Nós todos, Patrícios e Plebeus, podemos ser considerados filhos do Brasil, claro, afinal somos a fiel reprodução da nossa cultura histórica. Todavia, nem todos podemos ser considerados cidadãos. Apesar das mudanças e intransigências históricas, o conservadorismo nacional  não nos deixa ir muito longe.

E ainda temos a questão daqueles para quem a cidadania é negada. Estão excluídos da oportunidade de aplicar este termo às suas vidas particulares, porque são negligenciados pela sociedade e pelo estado. Não são considerados “um de nós”, cidadãos confusos, ou consumidores cidadãos, mas sim “objetos humanos” classificados com rótulos que os afastam de qualquer possibilidade de também decidirem sobre os “novos caminhos do Brasil”. Entretanto, são lembrados quando a sua opinião pode levar alguém ao status de político, “representante do povo”. Apesar de a cidadania estar vinculada ao voto, este tem sido um dos motivos para segregar ainda mais os “participantes” e os “exilados”. Nós mesmos criamos certas barreiras para impedir que este ou aquele sejam cidadãos, os julgamos por serem analfabetos, moradores de rua, usuários de drogas, prostitutas e etc., e assim determinamos, conscientemente, a sua pouca aptidão para também decidir sobre o que é melhor para o país. Em alguns casos, nem os consideramos humanos.

A cidadania exige o rompimento com estes laços antiquados e com este sistema ineficaz no  qual vivemos, além da discussão rotineira e do repensar, como eu escrevi alguns parágrafos acima. Ser cidadão requer aproximação com a política, com o Estado. Os deveres do cidadão vão muito além de pagar contas, não jogar lixo no chão e respeitar as leis de trânsito, têm a ver com a vontade, o compromisso e o envolvimento com outras causas determinantes para o futuro do país. Ser cidadão não diz respeito apenas a grandes feitos, mas também a “pequenos” (grandes) objetivos, como a transmissão de informação e a solidariedade. Não negligenciar causas benéficas ao país, à sociedade, ao desenvolvimento, por exemplo, mesmo quando estas pautas não estejam dentro do nosso universo, também é cidadania.  

Não vou entrar em detalhes sobre a falta de cidadania, que tem a ver, em minha opinião, com a falta de educação, porque estas práticas já são, paradoxalmente, conhecidas pela sociedade (sabem o que não é, mas não sabem o que é cidadania). Mas estas condutas, mesmo que em baixa escala, atingem a todos e provocam o regresso. Não precisamos condenar quem “não é cidadão” “por escolha” ou por “falta de conhecimento”, mas sim procurar mecanismos para provocar a discussão e apresentar a importância da participação geral na elaboração dos novos conceitos de cidadania e, obviamente, das práticas cidadãs. Ser um cidadão é, claro, promover cidadania.

Desta forma, a cidadania não é só um único conceito, mas um conjunto de princípios. E ser cidadão não simboliza apenas ser brasileiro e cumprir com certas obrigações impostas pelo estado, mas ter sensibilidade o suficiente para aplicar e desenvolver práticas cidadãs, quando a sociedade, independente da atuação governista, estiver precisando. Somos cidadãos, por exemplo, quando respeitamos as diferenças individuais, os direitos humanos, quando pensamos no próximo, quando nos prestamos ao serviço do país, não de um governo, para o avanço e o progresso e quando nos posicionamos e agimos contra as desigualdades, misérias e crimes contra a nação. Ou seja, somos cidadão e promovemos cidadania toda vez em que agimos por mudanças positivas dentro do nosso contexto e nos envolvemos com a nossa realidade.

Estes dois termos, cidadão e cidadania, hoje, precisam ser encarados, compreendidos e transmitidos de outras formas, menos reticentes, porque não basta mais apenas saber viver em sociedade, temos também que contribuir para o seu crescimento. Façamos o exercício de renovação e readaptação da cidadania e do cidadão. As reformas e as revoluções podem fazer muito bem ao Brasil e ao sistema democrático, que carrega a cidadania como uma de suas bandeiras.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

As cores do Brasil - P.1


Muito antes de os lusitanos abarcarem Pindorama*, erguendo cruzes cristãs e arrastando cofres vazios, os homossexuais já habitavam este território, que mais tarde seria explorado pela coroa portuguesa, dominado pela cultura ibérica e intitulado Brasil. Entre as comunidades indígenas (nativas), o comportamento homossexual era tradicional e cotidianamente comum. Pesquisadores afirmam que este padrão social era componente essencial da cultura de muitas organizações nativas. Ou seja, a homossexualidade fazia parte do conjunto de costumes de muitas tribos.


Entretanto, para os portugueses colonizadores, esta orientação sexual, na época já conhecida na Europa, ainda provocava temor e incompreensão. Investidos pela “ideologia” cristã, os exploradores logo encontraram uma interpretação religiosa para submeter os homossexuais a punições físicas e verbais. Desde então, os homossexuais passaram a ser classificados como criminosos e pecadores. Foram socialmente excluídos pelos ensinamentos transmitidos e impostos por missionários jesuítas, para “salvar” a alma do índio, e começaram a morrer com truculência pregada pela espada portuguesa. Alvorecia, em território nacional, o preconceito formal, histórico e cultural contra o homossexual.

Mais tarde, a homossexualidade foi detectada também entre os negros africanos e entre os homens brancos. Estes grupos, que desembarcavam para protagonizar a manutenção da exploração criminosa do Brasil, aumentaram a pluralidade de comportamentos homossexuais, no Brasil, bem como o número de gays, lésbicas e travestis. Tanto o continente Europeu como o continente Africano eram também compostos por comunidades homossexuais, todas elas atendendo às demandas culturais e históricas de seus locais de origem, em muitos casos, principalmente na África, sem preconceito. 

Entretanto, nem o negro, nem o branco e nem o nativo foram poupados. O nível de crueldade contra estas pessoas era, e é inimaginável. Estupros e outros constrangimentos físicos e psicológicos eram rotineiros. O preconceito crescia a cada dia e os homossexuais eram exterminados da Ilha de Vera Cruz. Não demorou muito, também, para que a Congregação do Santo Ofício (Inquisição) iniciasse sua caça particular aos LGBTTT´s**. 

Iniciada 42 anos depois do descobrimento do Brasil, o Tribunal Da Santa Inquisição era similar aos estabelecidos no período medieval e pelos espanhóis, anos antes. Aos inquisidores, na colônia, eram denunciados indivíduos “compreendidos” como pecadores. Neste rol estavam os homossexuais. A maioria dos LGBTTT´s assassinados pela Inquisição tinha pele branca, isso devido ao fato (principalmente) de o denunciante lucrar com  1/3 do que pertencia ao denunciado. Não consegui encontrar um número exato de quantas pessoas (homossexuais) foram eliminadas, neste período, mas em nenhuma das pesquisas que realizei um número baixo foi considerado.

Após a independência, os homossexuais, todos eles, deixaram de ser classificados como criminosos, mas continuaram sofrendo ataques da moral cristã ou do preconceito já indevidamente plantado em solo verde-amarelo. A esta altura já não bastava apenas a eliminação de nomenclaturas, classificações e punições destinadas aos LGBTTT´s. Já estávamos falando de um universo criado e alimentado por anos, e que persistiria no imaginário do brasileiro.

Pode-se dizer, portanto, que os homossexuais, no Brasil, encaram 511 anos de preconceito, exclusão e práticas de extermínio. Bem como em outros assuntos, as perversidades históricas persistem sendo reverenciadas e reproduzidas pela sociedade contemporânea. Em pleno século 21, ainda há quem encare um homossexual com a mesma visão dos colonizadores portugueses. Somente no século XX, a psicologia e a psiquiatria deixaram de classificar a homossexualidade como uma doença, ou um distúrbio, apesar de algumas vertentes ainda a considerarem uma espécie de inversão. 

Após os inúmeros avanços alcançados pelo homem, ao longo do desenvolvimento da humanidade, os LGBTTT´s  brasileiros ainda carregam o peso de uma “cruz” que lhes foi “instituída” há tantos anos pela irracionalidade (cultural) portuguesa e cristã, pela decadência de sistemas políticos e também por certa falta de competência científica, em alguns casos.

Parênteses:

É preciso levar em consideração, todavia, as complexidades que compreendiam certos países, grupos de pessoas e religiões, nestes períodos históricos. Não há como fazer uma leitura superficial da história da humanidade, o desenrolar de suas desventuras e o desenvolvimento de certas tendências (certas ou erradas).

Há muitos elementos culturais, comportamentais, sociais e políticos envoltos na história do Brasil, responsáveis por acontecimentos que agora marcam o nosso presente. Estes elementos foram decisivos para o tratamento recebido pelas minorias ao longo da história do país. Boa parte destas tragédias vinculadas ao preconceito está baseada no que foi e está arraigado culturalmente.

O que compunha e compõe o imaginário do ser humano (cultura, tradição) sempre foi decisivo para suas ações posteriores. Alguns historiadores, por exemplo, consideram o cristianismo e a mídia - instituições que influenciam o comportamento humano - como duas das principais “casas” impulsionadoras do preconceito cultural atrasado do Brasil colônia. Aliás, há quem diga que o cristianismo foi quem primeiro implantou, em território nacional, o preconceito contra o homossexual.

Assim como os homossexuais, negros, mulheres e outros grupos de pessoas sofreram com esta relação confusa e prejudicial entre o homem e os componentes de seu contexto político, social e econômico, que também rege a vida na terra. Mesmo assim, não podemos acatar nenhuma das fatalidades, resultantes deste diálogo, como normais, depois de anos de evolução.

Injustificável:

Se estivermos, invariavelmente, e até certo ponto contratualmente, almejando o progresso do país, não podemos concordar com o que vai de encontro com o bem comum, a igualdade de direitos e o respeito ao indivíduo. O desacato a alguém devido à sua orientação sexual é injustificável porque, além dos pesares, contradiz postulados do nosso sistema democrático, gera desigualdade social e promove a violência.

Mesmo considerando princípios culturais, religiosos e políticos, e até respeitando-os, o país não pode arcar com os prejuízos do preconceito. A sociedade, como em todos os casos, é a mais prejudicada. Ao aceitar o comportamento discriminatório, estamos concordando com o retorno a valores que faziam parte de uma realidade penosa para a sociedade. Só conseguiremos realmente provocar o desenvolvimento social caso eliminemos traços do atraso e busquemos rotas saudáveis para o progresso. Portanto, precisamos expelir e combater condutas  que promovem a exclusão, o preconceito e outras violências.

Não estou pregando uma resposta violenta contra os conservadores, racistas e homofóbicos - estes devem ser devidamente julgados pela justiça brasileira, se causarem danos, quaisquer que sejam, à sociedade -, mas sim um movimento pela evolução da forma de encarar o mundo e as pessoas. Uma reforma educacional pode nos retirar desta sombra ignorante, nos fazer perceber as injustiças e provocar o afastamento desta realidade. Cabe ao governo e à sociedade, novamente juntos, promoverem um país que respeite a pluralidade e conserve o cidadão.

No Brasil - Números:

Em 2008, a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) estimou que 9,4% da população brasileira era homossexual, cerca de 17,9  milhões de pessoas. Este ano, os números divulgados pelo CENSO 2010 (IBGE), o primeiro a questionar a opção sexual, revelaram que o Brasil tem 60 mil casais homossexuais, número que pode ser bem maior, segundo pesquisadores e militantes. A quantidade de cidadãos brasileiros homossexuais usualmente  acompanha o crescimento populacional, e está quase sempre representada por 10% (número aproximado) do número total de pessoas.

A pesquisa Mosaico Brasil, realizada pelo Projeto Sexualidade (Prosex), do Instituto de Psicologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, revelou, no final de 2008, números referentes à quantidade de homossexuais adultos em 10 capitais brasileiras. Confira o percentual de LGBTTT´s, nas regiões pesquisadas, abaixo:


Estas informações são importantes, segundo estudiosos, pesquisadores e militantes, porque auxiliam na proposição de políticas públicas que visem garantir os direitos civis dos homossexuais e o confronto dos problemas por eles vivenciados. Como eu já comentei em outros posts, estas pesquisas e estudos são extremamente necessários para mapear as distintas realidades brasileiras e projetar estratégias de combate ao preconceito e às desigualdades.

Violência:

A intolerância com a homossexualidade, no Brasil, é latente. Aliás, o país vive um grande paradoxo nesta questão, fruto não só do preconceito histórico, mas também da pluralidade de pensamentos. Mesmo realizando cerca de 150 paradas gays por ano (entre elas a maior parada gay do mundo, em São Paulo, com 3 milhões de pessoas) e abrigando mais de 200 movimentos de luta pelos direitos do homossexual, o Brasil tem o título de “país com o maior número de assassinatos de homossexuais”. 

Segundo um levantamento realizado pela organização Grupo Gay da Bahia (GGB), no Brasil, a cada 36 horas um homossexual é assassinado. O número de LGBTT´s aniquilados subiu 113%, alcançando a marca de 260 pessoas mortas a cada 365 dias. Neste ano, até agosto, 144 homicídios dolosos já haviam sido registrados. 

Mas, como se sabe, a violência é mais do que a agressão física. Certamente, em uma sociedade com estes números, outros meios, mais subjetivos, são utilizados para desrespeitar e agredir o homossexual, como a exclusão social e a imposição de condutas sociais discriminatórias, por exemplo.

AIDS e o Preconceito:

Antigamente, por falta de informação e preconceito, dizia-se, costumeiramente, que os gays, as lésbicas ou os travestis eram responsáveis por espalhar o vírus da AIDS pelo mundo. Por meio de campanhas, estudos e esclarecimentos, este mito absurdo acabou caindo... Para algumas pessoas. No Brasil, país declaradamente conservador em muitas questões e ignorante em algumas outras, segmentos sociais ainda vinculam doenças sexualmente transmissíveis aos homossexuais, como se eles fossem os responsáveis por transmiti-las.

Em um estudo realizado pelo Ministério da Saúde, os números de gays jovens (13 a 24 anos) com AIDS, atualmente, é o maior desde a epidemia dos anos 80, 35,1% da população. Entretanto, o número é igualmente alarmante entre adultos heterossexuais com mais de 30 anos, 43% desta população tem AIDS, ou seja, 37 milhões de pessoas, 1/5 do Brasil.

Os LGBTTT´s não são os únicos capazes de contrair ou disseminar a AIDS. A transmissão e contração do vírus é, na maioria dos casos, um problema de informação e acesso. Hoje, o país já distribui camisinhas gratuitamente e aumentou o número de campanhas informativas, mas estas discussões quase nunca atraem ou chegam ao segmento que pode modificar esta realidade, os jovens (incluindo as crianças). Em minha opinião, o pouco contato com o tema, no período de formação escolar, promove a negligência, quando a pessoa chega à fase adulta. 

Por outro lado, o “não uso da camisinha” também é justificado de outras formas. Para o infectologista Artur Timerman, por exemplo, um dos mais bem conceituados do país, há uma espécie de comportamento perigoso para contrair o vírus do HIV, como o consumo abusivo de álcool. Vale lembrar que o combate à transmissão do vírus depende não só da difusão informativa e da ação governamental, como também do apoio e da vontade popular. 

Preconceito no mercado de trabalho:

Um estudo realizado pelo site trabalhando.com Brasil, com 400 entrevistados, revelou a condição atual do homossexual no mercado de trabalho e apresenta o preconceito infiltrado no ambiente profissional. Os resultados da pesquisa mostraram que cerca de 200 entrevistados acreditam no preconceito contra o homossexual, nos ambientes de trabalho, mesmo quando este não é declarado. Em contramão, 12 pessoas não acreditam nesta realidade e a imaginam distante do contexto do país.

A trabalhando.com também realizou enquetes com 30 empresas, que permaneceram anônimas. A questão principal era se o homossexual tinha lugar em seus escritórios. Como já era de se esperar, pelo menos para mim, a resposta foi a de que a contratação de homossexuais depende do cargo, da posição e da área de atuação. O homossexual, como acontece também fora dos locais de trabalho, é impedido de ocupar os mesmos espaços do heterossexual. Este estudo é um retrato, ou resumo, do que acontece rotineiramente aos homossexuais, no mercado de trabalho, em todo o Brasil. 

Clique no link abaixo para ouvir a entrevista feita com a gerente de recrutamento e seleção da trabalhando.com, pela Rádio Roquette Pinto, sobre os resultados da pesquisa. 


O Movimento homossexual, as políticas públicas e o futuro:

Os movimentos populares em defesa dos direitos dos integrantes das comunidades LGBTT surgiram com o intuito de combater o preconceito e a desigualdade social. Com o passar dos anos, estes grupos sociais assumiram posturas mais consistentes perante a sociedade e se posicionaram melhor politicamente, o que facilitou o contato com o governo e o diálogo com a sociedade. 

Estas organizações, atualmente, fiscalizam, cobram e agem. Elas realizam duros confrontos por direitos civis, visibilidade, emancipação e justiça. Além disso, auxiliam os homossexuais na denúncia de abusos e violências. Enfim, são de extrema importância para toda a sociedade, pois exigem do país a igualdade, o respeito e, sempre, o progresso, necessários ao nosso desenvolvimento social. 

Nos últimos anos, os movimentos LGBTT´s ganharam mais apoio governamental. Na última gestão do Governo Federal, a Secretaria dos Direitos Humanos (SDH), criada em 1977, dentro do Ministério da Justiça, tornou-se também um Ministério (Secretaria Especial dos Direitos Humanos), em 2003, e passou a ser mais atuante na questão, ou nas questões, dos homossexuais, com programas e políticas públicas mais eficientes. Conheça, aqui, algumas das propostas e ações do Ministério, atualmente chefiado pela ministra Maria do Rosário, e aqui, outras planos projetados e realizados pelo Governo Federal.

Figuras políticas também começaram a ganhar visibilidade por lutarem pelos direitos dos homossexuais. Além da senadora Marta Suplicy (PT-SP), uma das mais atuantes nas pelejas pelos direitos dos LGBTTT´s e uma das primeiras a cobrar a união homoafetiva, também o deputado Jean Willis (PSOL-RJ) vem realizando diversos trabalhos em prol dos Direitos Humanos e da classe homossexual, desafiando bancadas conservadoras e objetivando mudanças sociais para a promoção da igualdade.

Legislações e "novas interpretações da constituição" têm atendido à algumas expectativas de movimentos LGBTTT´s, como a recente decisão do Superior Tribunal Federal em reconhecer a união estável homoafetiva (clique aqui para ver o que mudou). Passo importante rumo à equiparação entre casais heterossexuais e os casais homossexuais, e uma clara vitória na luta por direitos iguais. Porém, outras exigências importantes ainda não foram atendidas, como a criminalização da homofobia e o direito ao casamento entre homossexuais. 

A realidade do homossexual, bem como a do negro, da mulher e de outros grupos que sofreram repressões históricas, precisa ser debatida desde a educação fundamental, nas escolas. É preciso instaurar a cultura do respeito às diferenças. Somente a educação pode reverter o quadro de preconceito observado ainda na sociedade moderna e complexa. 

O Ministério da Educação (MEC),  tentou, entre 2010 e 2011, (e ainda tenta) estratégias para inserir o tema (ou os temas) nas salas de aula, visando combater o preconceito desde cedo. Os projetos usualmente não têm o apoio popular e nem muito do apoio político – a discursão acerca da homossexualidade, e outros assuntos relacionados às minorias, ainda não é tão aceita e ainda é bastante polêmica, no Brasil -, mas precisam ser discutidos, mesmo que com reavaliações e mudanças de aplicação, para conseguir fazer com que este assunto faça parte da formação dos cidadãos.

Não podemos mais aceitar um presente e um futuro com preconceitos. Em um país plural, como o nosso, o convívio e a tolerância com as diferentes formas de pensamento, orientações sexuais, cores e etc., precisa ser ensinado e promovido, para evitar a transgressão dos Direitos Humanos e a destituição do nosso regime político. 


-> Para denunciar a violência contra o homossexual, use o DISQUE 100 - O serviço agora também funciona contra a homofobia. 


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* Pindorama  - Nome que os índios davam ao Brasil, antes de Cabral.
**LGBTTT -  Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Vieram, viram e vencerão - Parte 1



94 anos foram percorridos pela humanidade desde que manifestantes russas iniciaram uma série de protestos* que marcariam o dia 8 de março como O Dia Internacional da Mulher. Entretanto, a luta feminina por igualdade, respeito e liberdade é anterior ao século 20 e contemporânea do século 21.  Joanas, Marias, Evitas e Anitas, perseverantes, cruzaram o passado, marcam o presente e constroem o futuro empunhando personalidade, resistência e coragem. Unidas, cada uma a sua época, estas mulheres também foram, e são representantes do progresso, da justiça, da igualdade e da prosperidade.

Todavia, a história deixou estigmas sociais. Sociedades patriarcais, alimentadas pelo machismo e outros preconceitos “tradicionais”, estabeleceram grande parte dos “padrões e códigos sociais” responsáveis por realidades desiguais em questões de gênero. Deste mesmo berço, embalsadas com os mesmos princípios, foram concebidas interpretações mercadológicas, ideológicas, religiosas, econômicas, políticas e culturais que também são responsáveis pelas barreiras impostas às mulheres ao longo dos séculos. 

Neste cenário em que conviveram (e convivem) a glória das vitórias femininas e o desbaratamento provocado por duros golpes da evolução do “atraso” da humanidade, a mulher se tornou vítima da ignorância humana. Foi estabelecida, ainda nos primórdios, uma espécie de ditadura do medo, baseada em constrangimentos físicos e morais contra as mulheres, partindo de várias instituições e pessoas, para coibir a participação feminina, continuar a manutenção injusta do gênero dominante e impedir o avanço social necessário ao desenvolvimento da humanidade. Este estado opressor preservava (e preserva) uma herança cultural sanguinolenta e promove o desrespeito à vida humana. 

A violência contra a mulher é uma tragédia na história do mundo. Simboliza uma das maiores brutalidades “criadas” pela humanidade. Ela compreende não só uma relação de contato físico agressivo e prejudicial, como também uma extensa gama de situações e atitudes cotidianas igualmente e objetivamente ofensivas às mulheres e aos demais membros da sociedade.


No Brasil

No Brasil, temos cerca de 100 milhões de mulheres, segundo o IBGE. Mesmo levando em conta este expressivo número, composto por mais de 50% da população nacional, anos e horrores se passaram até que o Estado brasileiro resolvesse tomar providências mais sérias e cabíveis para o combate à violência contra a mulher. Em 2003, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva inaugurou a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SEPM). O objetivo deste órgão é justamente promover a igualdade entre os gêneros e combater a violência contra a mulher. O contato da SEPM com a sociedade civil é constante. Muito dos programas elaborados por esta instituição pública são realizados em conjunto com grupos, entidades e organizações sociais que têm iguais objetivos em relação à realidade feminina.

Três anos mais tarde, o mesmo presidente sancionou a Lei nº11.340, conhecida popularmente como a Lei Maria da Penha, nome em homenagem a Maria da Penha Maia Fernandes, que teve em sua história um dos casos mais emblemáticos de violência contra a mulher entre os que são registrados no Brasil. Esta Lei trouxe inovações para a legislação brasileira e criou mecanismos visando a erradicação da violência de gênero, dentre eles, o aumento no rigor das punições impostas a agressores.

Um levantamento feito pelo Instituto AVON, organização que mantém parcerias com a SEPM, com o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) e com o Instituto Patrícia Galvão, para trabalhar programas de combate à violência contra a mulher, aponta que, em 2009, cerca de 80% das mulheres brasileiras (entrevistadas pelos pesquisadores) conheciam a Lei Maria da Penha. Este percentual era alto independente de classe social ou do grau de educação. O estudo credita esta amplitude informativa ao trabalho de Movimentos Sociais na fiscalização da aplicação da Legislação. 

A participação social é extremamente importante para o enfrentamento deste tema. Todavia, não se pode negar o serviço prestado pela divulgação midiática para a prevenção contra a violência e o estímulo à denúncia. Organizações públicas e particulares também têm se mobilizado em favor da causa.

A população brasileira acredita na satisfatoriedade da Lei. Um levantamento feito pela ONG Themis Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero, em parceria com o Governo Federal e o Instituto Patrícia Galvão, apontou que cerca de 83% dos entrevistados está de acordo que a Lei pode sim ajudar mulheres que sofreram agressão. 


A violência e o silêncio

Infelizmente, não é possível conceber que o conhecimento da lei signifique a sua aplicação em todos os casos em que é exigida. Um estudo desenvolvido pelo Instituto Patrícia Galvão, em 2006, descobriu que 25% das mulheres que sofreram algum tipo de agressão não fizeram a denúncia  por motivos como: “a denúncia só faz aumentar a violência em casa”, “para preservar o casamento e a família”,  “não acontece nada com o agressor” e a dependência financeira em relação ao agressor. É claro que é preciso considerar toda a complexidade dos contextos em que ocorrem a violência.

Apesar da tentativa de se compreender logicamente as razões para a falta da denúncia, nem sempre estes motivos são tangíveis ou concretos. Há de se considerar o número de justificativas advindas de questões culturais históricas muito particulares e de difícil acesso. É dever do Estado e da sociedade trabalhar de forma a buscar caminhos para compreender as realidades destes casos e desenvolver alternativas para impedir agressões e impelir a denúncia. 

O Anuário das Mulheres Brasileiras, publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), para estudar a condição da mulher brasileira, revelou que 43% das mulheres do país já sofreram violência doméstica e 36%, violência em via pública. Ou seja, se você tem 10 amigas, parentes ou conhecidas, 4 delas provavelmente já foram vítimas de agressão. Se transformarmos estes dados para o número exato de habitantes femininas, no Brasil, podemos considerar mais de 43 milhões de mulheres vítimas de violência doméstica ou em via pública. 

As violências físicas, psicológicas, sexuais, patrimoniais entram neste quadro de agressões junto ao cárcere privado e ao tráfico de mulheres. Todavia, não só estas hostilidades preocupam as mulheres, outros temas também têm muito da  sua atenção, como a AIDS, os métodos contraceptivos e o câncer de mama e de útero. Este conjunto de violências e preocupações, todos no universo feminino, concluem também um caso de saúde pública, porque diz respeito à integridade física e mental da pessoa, aumentando ainda mais a responsabilidade do Estado sobre estes casos. Aliás, ainda é grande o número de mulheres que procuram somente os serviços de saúde, após serem agredidas. 

Entre os motivos mais latentes para o agressor cometer o crime estão a embriaguez e o ciúme. 66% das pessoas que cometem a violência são maridos ou parceiros. Mais da metade das mulheres que sofreram agressão não convivem mais com o agressor, entretanto, 32% delas ainda convive, e, em alguns casos, ainda sofrendo violências constantemente (DataSenado). 


Para denunciar

No Brasil, além do número da Central de Atendimento à Mulher – 180 -, as vítimas usualmente recorrem à Delegacias da Mulher (DEAM), a Serviços de Atendimento, à Associações e Grupos de Mulheres e a amigos, famílias e igrejas. Contudo, as DEAM´s ainda são as instituições mais recorridas pelas vítimas. 

A primeira Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM) surgiu em São Paulo, em 1983. O governo de Franco Montoro (MDB), também sob a pressão de grupos populares, criou, inicialmente, antes da DEAM, o Conselho Estadual da Condição Feminina do Estado de São Paulo (CECF-SP), entidade posteriormente “adotada” por outros Estados. Em âmbito nacional, logo após o fim do regime militar, o então presidente José Sarney (PMDB) deu vida ao Conselho Nacional de Direitos da Mulher (CNDM).

Ambas as instituições foram úteis para a participação popular no processo de democratização do país e para a proposição de algumas políticas públicas que tomariam formas mais consistentes, anos mais tarde. Delegacias e serviços de atendimento sempre foram cobranças manifestadas por organizações sociais vinculadas à causa feminina. 

O Brasil, hoje, tem 5.561 municípios. Confira, abaixo, o número de serviços de atendimento potencialmente úteis para auxiliar vítimas de agressão. Clique sobre o nome de cada um para visualizar um quadro com endereços e formas de contato:

(Fonte: Secretaria de Políticas para as Mulheres)



Centros Especializados de Atendimento à Mulher em Situação de Violência


Serviço de abrigamento






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Finalizando:

Este, portanto, é um pouco da realidade em relação à violência de gênero, no Brasil. Outros fatores podem e devem ser considerados, como a questão da educação,  no sentido amplo, envolvendo até casos recentes de pessoas públicas promovendo piadas com estupros e outros casos graves de violência contra a mulher, e das precariedades do serviço de saúde, que levam centenas de mulheres à morte. 

Há também a questão do aborto, ainda polêmica, no Brasil. O aborto condena um alto número de mulheres, porque as clínicas clandestinas, responsáveis, em muitos casos, por procedimentos de interrupção da gravidez, não são preparadas para assegurar a saúde da mulher, além de outras questões. Porém, tratarei destes assuntos  em outros momentos.

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Encerro aqui mais um Post do Pharoll. . Peço aos leitores e colegas para insistirem nesta luta contra a violência,  seja ela qual for ou contra quem for. Este combate é de extrema importância para a evolução democrática da nossa sociedade. Vamos denunciar a violência e auxiliar na extinção desta realidade. O país depende da ação popular, também, para se recuperar de traumas que deixaram mazelas terríveis para os dias atuais. 

Somos todos filhos de um passado violento (sentido mais vasto), mas nos tornamos responsáveis pela modificação deste sistema. É certo que precisamos revolucionar algumas instituições criadas anteriormente, baseadas em ideias e lógicas arcaicas, para dar espaço ao progresso.

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Mais uma vez me comprometo a retornar a este assunto, que é compreensivelmente longo e complexo.

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Download das Pesquisas:




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Sites de referência: