Atualmente, o acesso à cultura é um privilégio de poucos. Como a educação, a saúde, a segurança, o lazer, o trabalho e etc., o acesso à cultura, no Brasil, não é democratizado. Apenas alguns setores da sociedade brasileira conseguem ter real acesso a todos os tipos de produtos culturais oferecidos no país. Por falta de tempo ou de dinheiro, muitas pessoas não podem frequentar teatros, comprar livros ou ir a cinemas, por exemplo. Este acesso, que de certa forma contribui para a educação, deveria ser garantido a todo brasileiro.De fato, a massificação de alguns produtos culturais, promovida por meios de comunicação, tem colaborado para que mais pessoas encontrem menos portas fechadas, quando procuram por objetos e atividades culturais. Entretanto, ainda dentro deste contexto, parcela da sociedade está marginalizada. Como comentei no parágrafo anterior, essa "exclusão" se dá por motivos que vão desde a falta de tempo até a falta de dinheiro, “faltas” que geram outros abismos (um pouco mais subjetivos, mas ao mesmo tempo muito reais) entre o cidadão e o acesso à tantas formas de expressões culturais disponíveis no país.
Com seus 192 milhões de habitantes, o Brasil possui apenas 42 milhões de internautas (Ibope Nielsen Online), seja em casa ou no trabalho, com velocidades de internet relativamente baixas, se comparadas a outros lugares do mundo. O brasileiro lê, em média, apenas 4,7 livros por ano (Instituto Pró-Livro). De acordo com dados revelados pelo Ministério da Cultura (MinC), só 14% dos brasileiros vão ao cinema (pelo menos uma vez por mês), 92% nunca frequentaram museus, 93% nunca foram exposições de arte e 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança. Apesar de 5% dos trabalhadores brasileiros estarem inseridos economicamente no universo "cultural" brasileiro (MinC), estas estatísticas apontam dezenas de problemas com outras muitas explicações, porém, certamente, as questões financeiras formam uma das principais barreiras que afastam o brasileiro destes centros de cultura.
De acordo com a última pesquisa realizada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE – 2009), cerca de 89 milhões de brasileiros ganhavam entre meio e 3 salários mínimos. Com os valores atualizados e considerando que esse número (89 milhões) não se alterou muito de 2009 para 2011, quase 50% da população nacional ganha, em média, até pouco um mais de 1635 reais por mês.(Segundo a Organização Internacional do Trabalho - OIT- , o brasileiro trabalha, em média, 40,8 horas por semana, sem contar o tempo gasto com trânsito e responsabilidades domésticas.).A PNAD revela ainda que 32 milhões de famílias têm rendimento médio mensal de até um pouco mais de 1635 reais por mês. Mesmo com as facilidades de crédito, hoje disponíveis para boa parte dos brasileiros, a compra de um livro pode significar um gasto muito alto para estas pessoas/famílias. Se considerarmos que o preço médio de um livro é R$ 30, da entrada do cinema é R$ 16, do ingresso do teatro é R$ 20 e que uma entrada para um show está também na casa dos R$ 20 reais, para exemplo, somamos um gasto de R$ 86, ou melhor, 5% da renda de uma família que ganha 3 salários mínimos - 15% do salário mínimo -. Tudo isso sem considerar os gastos "adjacentes" (transporte, alimentação e etc.) e lembrando que esta é uma despesa para uma pessoa.
Além disso, estes cidadãos também têm caros compromissos financeiros com tudo aquilo o que lhes é, ironicamente, garantido por lei. A partir destas informações é possível compreender alguns comportamentos sociais de rejeição a determinados produtos culturais. É a criação de uma cultura que rejeita a “cultura”. Como vou comprar um livro ou um DVD, se preciso comer e pagar as contas? . O governo, algumas vezes, toma iniciativas para incluir estas pessoas em outras “dimensões culturais”, mas não basta incentivar, precisa abrir as portas.Levar antenas de televisão para que as pessoas possam assistir a canais nacionais, que não cumprem a legislação e não transmitem programação de qualidade, instalar internet, mas lenta e para pessoas que não podem ter um computador, fazer bibliotecas de rua, mas com livros desatualizados e cobrar um real em peças de teatro mais caras, como acontecem em algumas ocasiões, em ALGUNS estados, como Rio de Janeiro e São Paulo, pode ser um começo, um bom começo, mas não é tudo. O acesso à cultura, toda ela, deve ser ao menos facilitado pelo Estado.
É como um replay da história. Poucos têm acesso e muitos não têm. E isso fica ainda pior e mais como um "retrato do atraso", quando essa separação entre “quem pode e quem não pode” se dá por motivos sociais, políticos e econômicos. O governo brasileiro precisa sim trabalhar políticas públicas de acesso à cultura. As pessoas não podem ser penalizadas por não terem dinheiro o suficiente.
Empresas privadas também têm sua parcela de culpa, afinal, a lógica do sistema não permite que todos ganhem. O que não impede que o governo e estas mesmas empresas, visando o benefício social (que também não faz parte da lógica do sistema) e o lucro (esse sim), criem atalhos e caminhos para que as pessoas, mesmo as de baixa renda, possam atingir este “nirvana cultural”. Honrando o pacto democrático do nosso sistema político.
Empresas privadas também têm sua parcela de culpa, afinal, a lógica do sistema não permite que todos ganhem. O que não impede que o governo e estas mesmas empresas, visando o benefício social (que também não faz parte da lógica do sistema) e o lucro (esse sim), criem atalhos e caminhos para que as pessoas, mesmo as de baixa renda, possam atingir este “nirvana cultural”. Honrando o pacto democrático do nosso sistema político.
É necessário lutar contra esta ditadura financeira, criando meios de acesso. Não é só o governo que deve agir nesta batalha, mas também os produtores culturais e a sociedade civil, cobrando igualdade. Todos pertencemos ao mesmo Estado. O sistema precisa aceitar alterações, porque o cidadão precisa ser valorizado. -------------------------------
Alguns irão me criticar, porque eu não estou considerando que “o que é cultura pra mim” pode não ser “cultura pro outro”, devido, justamente, às distâncias (não andares) e valores culturais. Mas, acredito ter deixado bem claro que me refiro a um acesso geral, quer dizer, se o camarada ou a “camarada” quiserem, não podem, não têm dinheiro e o estado não ajuda.
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**Apesar de ter citado cinema, shows, dvd´s, livros e internet, sei e acredito que existem mais outros muitos produtos culturais por aí...
querrer,
ResponderExcluirlembrei de uma reportagem que saiu na penúltima edição da revista continuum, do itaú cultural: http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2720&cd_materia=1618
dá uma olhada lá.
laurem
Ótima matéria! Eu acredito que, assim como tentaram explicar o cara do Ipea, o Athayde e a Hickson, esse "não vou porque não quero" nasce da falta de tempo, dinheiro, educação e até da falta de respeito, como no caso do preconceito. É isso que tem que ficar claro nessas pesquisas, principalmente na metodologia, que "parece" ignorar fatores externos.
ResponderExcluirAí, os jornais vão lá e publicam: "Brasileiro não vai ao cinema porque não quer", por exemplo, mas a gente sabe que não é exatamente "porque não quer", mas sim porque há uma série de conflitos culturais, históricos, políticos, econômicos, sociais e midiáticos (parte da nossa história) envolvidos neste contexto.
http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/11/17/brasileiro-se-sente-distante-de-oferta-cultural-diz-ipea.jhtm
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