quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Partido da imprensa política - Parte I

Historicamente, o jornalismo é um das ferramentas sociais com mais efetividade no serviço de inserir o cidadão no contexto da esfera pública. O jornal colaborou, e colabora, com a reforma diária da sociedade, uma vez que fornece ao homem a possibilidade de questionar e compreender as questões políticas, econômicas e sociais, que constituem sua realidade. O jornalismo pode ser visto como um marco da evolução intelectual humana, ele acompanhou processos históricos, que marcaram a mudança de comportamento político e social da humanidade.


As empresas de jornalismo têm um papel social importante nos processos de transmissão e recriação da realidade. Jornais com altos índices de confiabilidade do público podem, através da imagem ou do texto (ou os dois juntos), impulsionar um grande número de pessoas a ter determinada visão sobre algum fato, que o não represente com exatidão, clareza e transparência. Aliás, a distorção das realidades pode promover comportamentos socialmente prejudiciais.

 É comum, no Brasil, que grandes jornais e revistas tenham métodos e visões diferentes, a exemplo da divergência política que há, entre de alguns periódicos nacionais.  Esse antagonismo informativo pode ser justificado pelo valor ideológico que reafirma as ações jornalísticas destas empresas de comunicação , ou pelo fato de estas empresas estarem de alguma forma vinculadas a grupos ou partidos políticos por interesses não tão claros ao receptor das informações produzidas. Há ainda a possibilidade de estes dois fatores trabalharem em conjunto, ou seja, empresas que reafirmam sua ideologia apoiadas por partidos políticos trabalharem as informações sem a clareza de suas intenções políticas. Não há, no Brasil, um estudo concreto que avalie o que realmente ocorre.

Em 25 de setembro de 2010, antes das eleições presidenciais brasileiras, o jornal Estado de São Paulo publicou um editorial em sua edição impressa no qual confirmava (com registro) seu apoio à candidatura de José Serra, candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), personagem que representava e representa a oposição ao governo que está a frente do país por quase 9 anos. Em muitas edições de seu periódico, o grupo responsável pela revista CartaCapital, liderado pelo jornalista Mino Carta, também em editoriais, demonstrou seu apoio ao governo da situação. Mino chega a chamar o ex-presidente Lula de "amigo pessoal" e a escrever longos textos de apoio ao presidente. 

A relação entre este jornal, esta revista e outros muitos, que não assumem a mesma postura de confirmar sua posição política editorial publicamente, e grupos políticos, que por vezes carregam mais do que ideais partidários, pode ser conflituosa, "forçando" o jornalista a romper com certas responsabilidades profissionais (código de conduta e ética, deontologia do profissional de jornalismo) e sociais.

           A proximidade com o poder público pode levar os jornalistas e as empresas de comunicação a entenderem este poder como seu, institucionalizando um novo espaço entre a mídia e a política no qual a  imprensa age como um partido de oposição mas não pode ser tratada como tal. Em 3 de março de 2010, a presidente da Associação Nacional de Jornais e executiva do jornal Folha de São Paulo, Maria Judith Brito, afirmou que, devido à fragilidade dos partidos de oposição, alguns jornais fariam sim o papel de oposição, o que, segundo ela, é também papel da imprensa. É papel da imprensa ser oposição política? O que a imprensa deve ser e deve fazer na sociedade?

            Bill Kovach e Tom Rosenstiel (Os elementos do jornalismo, 2004) afirmam que o jornalista deve ter a liberdade de trabalhar a partir de sua consciência. Mas o que realmente é a consciência deste jornalista, quando seu trabalho está ligado a uma relação política editorial confusa - ou com segundas, terceiras, quartas e quintas intenções?

      Desta forma, tendo tantas questões a serem discutidas, é necessário tentar compreender o comportamento dos grupos de comunicação quando o assunto é política, seja ela qual for.  No Brasil, jornais, revistas, emissoras de televisão e rádio, portais da internet e empresas de comunicação são propriedades de pessoas extremamente envolvidas com a política nacional. Mesmo que a legislação brasileira de comunicação não permita, a comunicação nacional é regida em grande parte por políticos.

Todos estes contextos apresentados precisam ser discutidos para o desenvolvimento da imprensa no país. É evidente o afastamento do jornalismo de suas funções sociais previstas academicamente. O relacionamento entre mídia e política pode ser um dos motivos que têm influenciado o jornalismo a funcionar com propósitos e objetivos distantes do que é de interesse social.

Independente do que eu ache ou deixe de achar, o jornalismo (a comunicação) precisa ser mais estudado nacionalmente, para que respostas a respeito do comportamento da imprensa sejam obtidas. Ou melhor dizendo, tentar compreender o universo da comunicação brasileira por meio de teóricos e teorias de escolas americanas e europeias, talvez não seja o ideal para a "evolução" jornalística tupiniquim.

Um comentário:

  1. Gostei muito do post. Está bem didático e traz uma problemática muito interessante. Achei legal o fato de você não tomar nenhum lado na discussão entre a relação política/jornalismo, ao expor as diferentes opiniões, o texto ficou mais completo...

    Gostei =]

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